O sonho e a invenção da psicanálise

A fundação da psicanálise coincide com o lançamento do livro dos sonhos publicado por Freud em 1900.

 

Todos aqueles que se dedicam ao estudo do sonho dentro da psicanálise, conhecem a importância do sonhar para o equilíbrio psíquico do sujeito. O estudo do processo do sonhar no sujeito é utilizado por Freud como modelo do funcionamento psíquico e é por ele estudado com profundidade no capítulo VII deste livro.

 

O estudo referido passeia pelos obscuros meandros desta produção psíquica, denotando sua natureza de ‘texto psíquico’, ainda que feito de imagens, sons, signos não verbais que não possuem nenhum compromisso de comunicação.

 

Os sonhos são sonhados por sonhar... Freud descobriu no sonhar a possibilidade de acesso ao inconsciente e esta descoberta fundou a psicanálise fundamentando seu método de trabalho.

 

O que vem a ser proposto por Freud, a partir da Interpretação dos sonhos de 1900, é que pensemos o sonho como uma escritura psíquica, uma encenação formada por imagens que

 

se organizam por uma lógica própria, que é a do inconsciente com suas leis, permeada por vivências absolutamente singulares, de modo que jamais duas imagens idênticas sonhadas em sonhos de diferentes sujeitos poderiam ter igual significação.

 

Mas então o que quer o sonho? E como tal alucinação psíquica poderia veicular equilíbrio ao aparelho?

 

Como poderia o sonho dar acesso ao mais originário no sujeito se sua figuração se parece tão enigmática ao próprio sujeito?

 

Esta foi a criação da psicanálise. Ao pedir ao paciente que associe as ideias que vêm à cabeça com respeito aos elementos contidos no texto psíquico, faz a descoberta fundamental acerca do sonho: estes são sempre destinados à realização de desejos infantis recalcados.

 

E se o sonho é destino de uma realização de tal ordem, não estaria ele destinado a se manter em segredo para o próprio sujeito?

 

Freud refere que não só os desejos inconscientes são satisfeitos no sonho, mas também os desejos conscientes. No entanto, precisa haver um enlace dos primeiros com os segundos para que se forme o sonho. Foi através das associações de seus pacientes que compreendeu o fato de que, os desejos provenientes do inconsciente ficam em permanente estado de alerta para a oportunidade de transferir sua carga ao desejo consciente e, desta forma, obter a possibilidade de realização.

 

O trabalho do sonho é um processo psíquico que consiste em construir um texto psíquico altamente complexo, individual e que, ao mesmo tempo em que permite a satisfação de desejos infantis recalcados, também necessita encontrar modos de distorcer e deformar a realização destes desejos como expressão da censura proveniente de um ego que assegure proteção ao sujeito. É por esta razão que o sonho aparenta ser tão enigmático ao próprio sonhador.

 

O que pode se passar com o aparelho do sonhar caso o ego não estiver habilitado à função da censura protetora?

 

A análise do sonhar de cada sujeito se coloca como um dos mais ricos instrumentos para uma avaliação metapsicológica, ajudando a definir os modos de intervenção na clínica psicanalítica.

 

Simone Accetta Groff
Coordenação | Núcleo de Intercâmbio Psicanalítico