Psicopatologia psicanalítica infantil

Este ano, o Núcleo de Psicanálise de Criança da Constructo, propõem-se em seus estudos a revisitação dos trabalhos e referencias teóricas propostos por Silvia Bleichmar sobre a psicopatologia infantil. Assim, o núcleo tem como propósito identificação dos indicadores metapsicológicos, para o estabelecimento de um diagnóstico diferencial.

 

A organização de uma psicopatologia infantil sempre foi uma das grandes preocupações de Silvia Bleichmar. A partir do momento em que a autora percebeu que o modelo com o qual sustentava seu pensar, não estava mais explicando os fenômenos na clínica.

 

Outros autores psicanalíticos já se dedicavam a essa questão, na tentativa de resolver e aliviar os problemas da saúde mental infantil. Mesmo assim, a psicopatologia infantil mostrava-se caótica e pouco organizada, sendo atravessada pela classificação psicopatológica adulta.


Silvia Bleichmar foi uma autora que buscou com sua teoria das origens do psiquismo e sua concepção de tempos de estruturação do aparelho psíquico, estabelecer ordenadores para uma psicopatologia infantil psicanalítica. Essa psicopatologia é sustentada na metapsicologia freudiana, levando em conta os aspectos dinâmicos, econômicos e tópicos. Nesse cenário o inconsciente não está desde os inícios, mas esse é o produto do recalcamento originário e da relação sexualizante com o outro humano que se dá a partir dos cuidados primordiais.


Pensar no ordenamento da psicopatologia infantil dentro desta linha de tempos de constituição do aparelho psíquico, amplia as possibilidades de abordagem dos processos clínicos da própria infância. Uma vez que, são tempos reais que podem ser cercados e investigados pelo analista, tempos em que este sexual, inscrito na relação com o outro humano, vai encontrando ligações e caminhos a partir dos cuidados do semelhante.


Dentro dessa perspectiva, Silvia Bleichmar trata de identificar o objeto com que se vai trabalhar, isto é, se estamos diante de um aparelho psíquico constituído ou não. Se não, em que momento dessa constituição se encontra, para então, estabelecer o tipo de intervenção. Assim, a autora entende a psicopatologia infantil como uma psicopatologia em movimento – uma vez que estamos em tempos de constituição psíquica, de modo que a psicopatologia deve ser ajustada em relação ao objeto que se tem. É uma psicopatologia que vai se definir, pelas falhas e fracassos nessa estruturação.


Considerando a infância tempos preciosos de estruturação do aparelho psíquico, momentos em que se dão os primeiros e grandes movimentos pulsionais que definirão os destinos do sujeito. Então, intervir nestes tempos reais, históricos se faz fundamental para encontrar modos de resolução para o sofrimento da criança, da família e principalmente para transformar as perspectivas futuras destes sujeitos em estruturação.

 

Maria Beatriz Tuchtenhagen
Psicanalista, Coordenadora do Núcleo de Psicanálise de Criança