Seria possível desconstruir o gênero?

No diálogo sobre as sexualidades diversas com as ciências sociais, com a cultura, a psicanálise deve sua contribuição propondo uma metapsicologia que se ocupe com o histórico-vivencial do sujeito psíquico que assim sendo virá a ser sujeito social, sujeito político. Propomos cercar o “DNA” psíquico do gênero, propomos refletir sobre o sexo psíquico.

 

A grande descoberta freudiana, diz Laplanche, não está do lado do sexo anatômico nem do gênero, mas no Sexual (o demoníaco) que põe em marcha por toda uma vida processos de transcrições, simbolizações, transformação de pulsão de morte em pulsão de vida, a partir do complicado romance familiar.

 

Afirmamos que entre a biologia e o gênero, a psicanálise tem introduzido a sexualidade pulsional/objetal que não se reduz nem a biologia, nem aos modos dominantes de representação social.

 

Enquanto que o objeto das ciências humanas (historiadores, sociólogos, antropólogos) é a vida sexual dos adultos, bem como assinalar as representações coletivas que prevalecem em um meio discursivo e socialmente determinado, o objeto do psicanalista é o sexual infantil, o infantilismo da sexualidade que em recebendo um complexo tratamento, se constituirá o núcleo da identidade do ser.

 

E sobre a inquietude que promove ponderar sobre as cartografias desejantes: hetero, homo, bissexualidade, a transexualidade, o travestismo?

 

O programa político "desfazer o gênero" esbarra no determinismo do inconsciente, da sexualidade infantil, da constituição do psiquismo.

 

O sexo psíquico, este possui a realidade de um sexo, coincidindo ou não com anatomia. Assim sendo, anatomia não é o destino, mas o destino a anatomia imaginária/imaginarizada.

 

Raquel Moreno Garcia
Psicanalista, Sócia-Fundadora, Diretora de Comunicação e Coordenadora do Núcleo de Estudos, Pesquisa e Clínica das questões Gênero/Sexo da Constructo